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Transcrito de REDES - Direitos Humanos

Tortura nas Forças Armadas

Cecília Maria Bouças Coimbra

De um modo geral, as Forças Armadas, no Brasil, têm sido apontadas como um grande trunfo no combate à chamada violência urbana e rural e ao tráfico de drogas.

Entretanto, em realidade, essas mesmas Forças Armadas enfrentam em suas fileiras sérios e graves problemas. Em matéria publicada em O Globo (19/08/01, p. 19), lê-se que “a grande maioria dos cerca de 1500 inquéritos e processos em tramitação na Justiça Militar da União, é de crimes graves, como latrocínio, homicídio, estelionato e roubo”. Esses crimes, no Rio de Janeiro, chegam a 71% do total desses processos.

Além disso, nas Forças Armadas há um número alto de alcoolismo e uso de drogas. “Somente no ambulatório do Centro de Tratamento Químico do Hospital Central da Marinha estão, cerca de 300 militares dependentes de álcool, barbitúricos, anfetaminas, maconha e cocaína” (O Globo, idem).

Fora este quadro – pouquíssimo divulgado – uma outra questão ganha espaço dentro das Forças Armadas: o uso sistemático da tortura e de outras violações contra seus próprios integrantes. O tema é bastante delicado e, no Brasil, considerado tabu. Pela força, prestígio e poder que as Forças Armadas ainda desfrutam no país – não esquecer o recente período de ditadura militar e a transição para os governos civis comprometida pelo silenciamento e pelo esque­cimento – as investigações são realizadas dentro das próprias corporações e as punições, quando acontecem, são bastante leves tendo em vista os delitos cometidos.

Humilhações e coações são rotina. Episódios envolvendo maus tratos não são novidades nas Forças Armadas. Até documentos em vídeos já registraram coações físicas e psicológicas durante treina­mentos: em 1993, a imprensa brasileira teve acesso a uma fita que mostrava soldados do Exército sugando o sangue de galinhas mortas. Também há registros de casos de suicídios motivados por humi­lhações e coações psicológicas.

Em maio de 2001, o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ e o Centro de Justiça Global entregaram ao Comitê Contra a Tortura da ONU documento onde eram assinalados 11 casos de torturas e violações acontecidos, em especial no estado do Rio de Janeiro, a partir de 1990.

Hoje, tem-se registrado 23 casos que se tornaram, de algum modo, públicos. Entretanto, somente em um número muito pequeno deles houve continuidade das denúncias feitas. Na maioria dos casos, pressionadas de diferentes formas, as pessoas desistiram de suas denúncias. São os seguintes os casos até agora levantados:

1. Cadete Márcio Lapoente da Silveira, 18 anos – (tortura e morte)

No dia 9 de outubro de 1990, às cinco da manhã, Márcio estava em treinamento na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, Rio de Janeiro, num pelotão comandado pelo tenente Antônio Carlos De Pessoa. O exercício era puxado. Márcio sentiu-se mal e pediu para descansar um pouco. Aos gritos o instrutor ordenou que conti­nuasse. Márcio continuou a instrução, suando, fraco, sentindo que o chão lhe faltava e tudo começava a rodar à sua volta, a ficar longe...

Desmaiou e decretou sua sentença de morte. Seu instrutor, o tenente De Pessoa, passou a gritar e a dizer-lhe, em meio a uma enxurrada de palavrões, que fosse homem e parasse de embromar. Das palavras passou aos atos e começou a chutar Márcio no corpo e na cabeça. O coturno do oficial bateu várias vezes, com força, na fronte do rapaz. Em seus derradeiros momentos de consciência, Márcio ainda tentou defender-se. Uma coronha de fuzil esmagou-lhe quatro dedos e reduziu sua mão esquerda a uma bola disforme de sangue.

Enquanto De Pessoa agredia Márcio, outros oficiais a tudo assistiam, sem intervir, mantendo os alunos à distância. Um deles chegou a comentar, dirigindo-se a Márcio que agonizava: “Você está com cara de quem vai morrer”. Toda a sessão de tortura foi filmada ante o espanto e a revolta dos colegas de turma..

Márcio, inconsciente, ficou estendido numa maca, exposto ao sol durante três horas, sem qualquer assistência. Formou-se um cordão de isolamento de soldados à sua volta com seus companheiros e até dois médicos que foram impedidos de aproximar-se dele, sendo informados de que se tratava de “uma cagada da instrução”. Só às 8h 30 deu entrada no Hospital da AMAN. Diagnóstico: meningite.

Em Resende, há um hospital com UTI que poderia ter atendido o rapaz. Entretanto, ele foi jogado numa ambulância sem qualquer equipamento e sem oxigênio, e transferido para o Hospital Central do Exército, no Rio. O calor era tanto, dentro da ambulância, que o trajeto foi feito com a porta aberta, porque o enfermeiro que o acompanhava reclamou. Márcio morreu na Via Dutra e chegou morto ao Hospital Central do Exército.

A autópsia foi assinada por um legista de passado notório, Rubens Pedro Macuco Janine, que já assinara laudos falsos de presos políticos assassinados durante a ditadura e que, por isto, acabou tendo seu registro de médico cassado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, em 2000.

O caso de Márcio foi parar na Justiça Militar, mas o espírito corporativo protegeu o assassino. A abertura do processo foi atrasada para que De Pessoa pudesse ser promovido a Capitão.

A Justiça Militar reconheceu documentalmente que houve “excessos” praticados por oficiais, negligência e erro médico, por parte dos médicos da AMAN. Apenas De Pessoa foi julgado, punido, mas beneficiado por sursis pelo Superior Tribunal Militar.

Os pais de Márcio continuam procurando justiça, apesar das pressões e ameaças que têm sofrido.

2. Luis Viana Santos, 19 anos – (tortura)

Em novembro de 1991, o então soldado Luiz V Santos, no quartel da Vila Militar (RJ), foi submetido a uma sessão de sete horas de tortura que o deixou incapacitado para o trabalho. Havia sido acusado do furto de um cheque, quando fazia um curso para cabo, preparando-se para a carreira militar. Apesar do soldado Almir Francisco de Sá ter confessado o roubo, três meses depois, Luiz Viana foi desligado do Exército sem direito a tratamento médico.

Com as pernas, braços e pescoço amarrados com cordas, o soldado foi espancado com chutes e pontapés e jogado contra a parede. Passou a apresentar várias seqüelas como problemas de coluna e de movimento no pulso esquerdo, devido às múltiplas fraturas que sofreu.

Em outubro de 1992, o Capitão de Cavalaria Delano Bastos de Miranda e o 3o Sargento George Carlos Rincon Baldessani foram condenados a 1 ano e 9 meses de prisão na 1a Auditoria do Exército, mas foram beneficiados por sursis e estão em liberdade.

A família foi pressionada para desistir do processo.

3. Emerson Santos de Melo, 20 anos – (suicídio)

Em novembro de 1992, o soldado do Exército Emerson que servia no 3o Batalhão Especial de Fronteira, em Macapá (Amapá), não suportando mais as pressões e humilhações sofridas no cotidiano do quartel, suicidou-se tomando uma mistura de medicamentos. No bilhete de despedida que deixou escreveu: “...como já disse antes esse é o pior ano de minha vida. Nunca pensei que um dia iria passar por tantas humilhações de uma vez só na vida.”

4. Jean Fábio da Silva Martins, 18 anos à época da prisão – (torturas)

Em 25 de março de 1994, para confessar um crime – o roubo de um fuzil – o recruta Fábio foi submetido a torturas. Esteve preso no Quartel da Vila Militar (RJ), na Delegacia de Roubos e Furtos e no Quartel da Polícia do Exército. Foram 36 dias de suplício por conta de sua inexperiência e ingenuidade. Havia recebido ordem de um militar, que se dizia tenente, para deixar seu fuzil FAL no local e fazer o reconhe­cimento da área próxima. Ao voltar, o fuzil havia desaparecido. Os superiores não aceitando sua história, prenderam-no e, durante 36 dias, foi violentamente torturado, sofrendo espancamentos, asfixia, etc.

5. Eduardo Ferreira Agostinho, 19 anos – (tortura e morte)

Após ter sido submetido a intensos exercícios físicos e maus tratos, em 24 de janeiro de 1996, o aluno da Escola Naval (RJ) Eduardo não resistiu aos treinamentos e morreu. Foi submetido a uma brutal sessão de exercícios e, durante uma corrida, sob sol forte, desmaiou e entrou em coma. Eduardo já havia baixado à enfermaria, uma hora antes, mas foi obrigado a retornar aos exercícios. Suas mãos e pés apresentavam bolhas de queimaduras provocadas pelo asfalto, onde teve que fazer várias flexões de braços. Além de Eduardo, dois outros aspirantes passaram mal, sendo que um deles chegou a ser internado. Dez outros não resistiram às brutalidades dos exercícios físicos e pediram baixa, ainda em janeiro de 1996.

6. Samuel de Oliveira Cardoso, 17 anos à época da prisão – (tortura)

O ex-aluno do Colégio Naval, em Angra dos Reis (RJ), Samuel após ser submetido a inúmeras torturas, saiu da escola, em janeiro de 1996. Vítima de maus tratos, ficou internado no Hospital da Marinha. Foi torturado por alunos mais velhos, o que dizem ser praxe no Colégio Naval. Sofreu espancamentos, torturas psicológicas e vários tipos de violência durante dois anos. Fazia testes físicos brutais, como passar o dia inteiro correndo. A comida, muitas vezes, era estragada, mas os alunos eram obrigados a comer. Ficou hipertenso e com

alterações no comportamento, não sendo mais capaz de fazer exercícios físicos.

7. Joílson da Silva Melo, 20 anos – (tortura e morte)

Em 27 de setembro de 1998, o aluno Joílson no 3o Batalhão de Infantaria (Niterói – RJ) não agüentou o treinamento realizado e os exercícios de sobrevivência na selva, vindo a falecer no Hospital Central do Exército. O laudo de necrópsia deu como causa mortis edema cerebral. A família soube por colegas de Joílson que, durante o treinamento, ele havia recebido chutes na cabeça. A família que pretendia processar o Exército desistiu diante das pressões sofridas.

8. Nazareno Kleber de Mattos Vargas, 29 anos à época da prisão – (torturas)

Cabo da Aeronáutica acusado de seqüestro, ficou preso, ini­cialmente, na 76ª Delegacia Policial, em Niterói, em 03 de fevereiro de 1997. Naquela Delegacia foi torturado com choques elétricos e espancamentos. Sua mulher também foi presa e torturada naquele local o que fez com que ele assinasse a confissão de seqüestro. No dia seguinte foi levado para o Batalhão de Infantaria da Aeronáutica (BINFA) do IIIo Comando Aéreo/RJ, (COMAR), onde foi torturado quase que diariamente durante dois anos e meio, até junho de 1999, quando por ordem da Justiça foi transferido para a Clínica Psiquiátrica Bela Vista, em Jacarepaguá (RJ).

Durante os dois anos e seis meses em que ficou preso foi, quase que diariamente, torturado com espancamentos (chutes, socos, pontapés, joelhadas, tapas), choques elétricos, sevícias sexuais (introdução de dedos e cassetete em seu ânus), palmatórias nas palmas das mãos e solas dos pés. De um modo geral, esses suplícios aconteciam à noite. Freqüentemente, era algemado para receber choques elétricos e ser espancado. A cela que ocupou com mais três outros presos (os casos são descritos adiante) era insalubre, com condições sub-humanas de higiene, com ratos, lacraias e baratas. Muitas vezes, após ser torturado, era colocado na cela despido e no meio de suas próprias fezes.

Nesses dois anos e meio de prisão somente foi levado ao banho de sol, duas ou três vezes. Seu desespero foi tanto que, por duas vezes, tentou o suicídio. De um modo geral, seus torturadores usavam capuz.

Quando da sua transferência para a Clínica Psiquiátrica foi ameaçado de morte se revelasse as agressões sofridas; na própria viatura que o transportava foi agredido com socos.

Depoimentos de vários de seus familiares confirmam as torturas sofridas, pelas marcas vistas em seu corpo (hematomas, inchaços e marcas de queimaduras)

Até hoje, Nazareno continua internado sob custódia e tem sérios e graves abalos psíquicos, tendo pesadelos constantes. Foi aberto processo no Ministério Público Militar e o cabo vem sendo sistemati­camente ameaçado para retirar a queixa. Também na Polícia Federal foi aberto um inquérito policial e seu caso vem sendo acompanhado, desde janeiro de 2001, pelo Procurador Federal dos Direitos dos Cidadãos, no Rio de Janeiro, Dr. Daniel Sarmento

9. Anderson Gomes Monteiro, 18 anos à época da prisão – (torturas)

Soldado da Aeronáutica, acusado de roubar um carro, foi preso, em 17/07/98 e encaminhado para o Batalhão de Infantaria da Aeronáutica (BINFA) do IIIo Comando Aéreo (COMAR) do Rio de Janeiro onde foi torturado por cerca de um ano e meio, até agosto de 2000. Da mesma forma que o Cabo Nazareno – com quem ficou na mesma cela – foi violentamente torturado, quase que diariamente, especialmente à noite e nos fins de semana. Em algumas ocasiões, chegou a ser espancado cinco vezes num mesmo dia. Freqüentemente era acordado à noite para ser torturado.

Em agosto de 1998 – por estar o BINFA com muitos presos – foi transferido para a prisão da Base Aérea do Galeão (RJ), onde permaneceu até novembro do mesmo ano. Lá também foi torturado, “só que com mais cautela” (depoimento do próprio soldado), sofrendo agressões físicas, coações e tendo que fazer exercícios físicos até a exaustão. À noite era freqüentemente acordado, tendo suas roupas de cama retiradas e seu colchão molhado. Ficou cerca de 10 dias sem ver sua família. A alimentação vinha remexida e salgada. Solicitou médico e dentista e seus pedidos foram ignorados.

Ao voltar para o BINFA do IIIº COMAR, ainda junto com Nazareno e outros dois presos, suas torturas continuaram. Num determinado dia, foi tão espancado que perdeu os sentidos. Por vezes, ficavam dias sem água. Aberto inquérito na Justiça Militar, por denúncia do soldado, nada foi apurado. Foi aberto também um inquérito policial na Polícia Federal e seu caso vem sendo acom­panhado, desde janeiro de 2001, pela Procurador Federal dos Direitos do Cidadão, no Rio de Janeiro, Dr. Daniel Sarmento.

10. Sérgio Wanderley Macedo da Costa, 25 anos – (possível suicídio)

O terceiro sargento do Exército Sérgio teria se suicidado no refeitório do Batalhão – Escola de Engenharia do Exército, em Santa Cruz (RJ) com um tiro na cabeça, em 11 de setembro de 1999. As fotos vistas pela família, mostravam um tiro por trás da orelha direita de Sérgio. Segundo seus pais ele nunca se suicidaria e vinha reclamando de que o estavam perseguindo no Batalhão.

11. Fernando Romel Fernandes de Oliveira, 18 anos – (tortura e morte)

Em 02 de junho de 1996, o soldado do Exército Romel foi espancado e torturado para dizer onde se encontrava uma arma desaparecida no 26o Batalhão de Infantaria Pára-quedista (RJ). Morreu oito horas depois no CTI do Hospital Central do Exército. Seu pai relata que soube que seu filho havia sido barbaramente espancado. Segundo dois amigos de Fernando, em 14 de maio, acusado pelo desaparecimento de uma pistola privativa das Forças Armadas, foi detido e impedido de se comunicar com a família. “Após o expediente , dois homens entraram na cela, supervisionados pelo sargento J. Gonçalves (...) (que) mandava bater com uma borracha e perguntava a quem Romel tinha dado a pistola. Como ele negava o furto, as pancadas não paravam (...). No dia seguinte ao espancamento, Romel recebeu novamente a visita do sargento na cela (...),foi mais uma vez espancado. Dia 16, o soldado começava passar mal (...). Três dias depois, como o estado de saúde do rapaz piorou, o comando determinou a internação” (Jornal O Dia, 28/09/97, p. 24). Três dias depois de ser levado ao Hospital Central do Exército, em 19 de maio, Romel entrou em coma.

A família entrou com ação contra o Exército, pedindo à Auditoria Militar o indiciamento dos responsáveis.

12. Marcos José de Sales Cantuária, 19 anos – (tortura)

Em 10 de julho de 2000, o soldado Marcos e um grupo de recrutas da Brigada Pára-quedista do Exército estavam na Serra do Mendanha (zona oeste do Rio de Janeiro) para exercícios. Marcos não conseguindo executar esses exercícios, foi espancado com grande violência durante quatro dias, pois havia passado mal e não pode continuar. A família pensou entrar com processo contra o Exército, mas não foi adiante.

13. Jeremias Pedro da Silva, 23 anos – (morte – provável morte não acidental)

O soldado do Exército Jeremias foi morto, em 07 de julho de 2000, segundo informações, por um tiro disparado por um colega num Quartel da Vila Militar (RJ). O caso foi narrado de forma estranha e confusa, pois a família de Jeremias chegou, a pedido das autoridades militares, a assinar um termo de perdão ao autor do disparo, o também soldado Wagner Vital Pegado, amigo de Jeremias.

14. Sérgio Rodrigo Pereira Gomes, 20 anos – ( morte)

O corpo do soldado da Aeronáutica Sérgio foi encontrado, em 30 de junho de 2000, com um tiro de calibre 9 mm na cabeça, em terreno da Aeronáutica, no Galeão (Ilha do Governador/RJ). Havia desapa­recido, em 29 de junho, quando dava guarda na Prefeitura do Galeão. O estranho é que seus familiares, no mesmo dia 29, foram procurados por soldados da Aeronáutica em busca de uma pistola Imbel 9 mm (pistola de uso exclusivo da Aeronáutica) que estava em poder do soldado.

15. Vilson Coelho Inácio – (tratamento de saúde)

Em 1993, familiares do soldado do Exército Vilson foram obrigados a entrar na Justiça para que o rapaz recebesse tratamento médico, pois sofria de febre reumática, doença que pode ser fatal se não houver tratamento adequado. Apesar disso, o comando do 1º Batalhão Logístico do Exército (RJ), onde Vilson servia, impediu que um médico civil o examinasse.

16. Celestino José Rodrigues Neto, 14 anos – (suicídio)

Em 15 de maio de 1990, o aluno da oitava série do Colégio Militar, do Rio de Janeiro, suicidou-se depois de ter sido submetido a humilhação pública diante dos colegas e da mãe no pátio do Colégio. Motivo: o garoto consultou um livro enquanto fazia a prova de Geografia, tendo sido suspenso por seis dias. Suicidou-se dois dias depois, deixando uma carta com um pedido de desculpas para a mãe, que acompanhara toda a cena no pátio da escola.

17. João Vicente Santana – (possível suicídio)

Em maio de 1992, no Rio de Janeiro, o soldado da Aeronáutica João Vicente teria cometido suicídio. A Aeronáutica apenas informou que o soldado se matara com um tiro de fuzil no pescoço. Entretanto, no atestado de óbito, a causa da morte foi atribuída a uma “contusão com fratura de crânio” .

18. Paulo Roberto Vieira Barbosa, 19 anos – (tentativa de suicídio)

Em 22 de agosto de 1993, o soldado Paulo, após três meses servindo na 1ª Companhia do Batalhão de Polícia do Exército (Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro), tentou o suicídio com quatro tiros. Segundo seus companheiros, ele recebia sua segunda punição por não ter se submetido à revisão do corte de cabelo. No dia 22, apesar de estar bastante deprimido, foi obrigado a fazer a conferência de armas no Batalhão, quando atirou contra si. Além de perder um rim, Paulo quebrou uma costela e os tiros também atingiram o fígado e o pulmão.

19. João Antonio Caputo, 31 anos – (assassinato)

O capitão – médico Caputo foi assassinado a tiros, em São Gonçalo/RJ, em 13 de novembro de 1990. Segundo documento confidencial do Exército, que o Jornal O Globo teve acesso, o oficial denunciou, em 23 de julho de 1990, ao Ministério do Exército, em Brasília, e ao Comando Militar do Leste, no Rio, o desaparecimento de várias caixas de medicamentos e de material cirúrgico do Hospital Central do Exército. Ao investigar o caso, Caputo descobriu que por trás dos roubos no hospital havia uma quadrilha também dedicada a contrabando de armas e munição.

Seu corpo foi encontrado na mala de seu carro abandonado, com as mãos amarradas e com três perfurações de pistola 45. O Exército não investigou, afirmando que o esclarecimento do assassinato competia à Justiça comum.

20. Alexander Cristiano da Silva – (provável suicídio)

O soldado do Exército Alexander que servia no Batalhão de Aviação do Exército, de Taubaté/SP, suicidou-se em 05 de dezembro de 1993. Estava preso no quartel há uma semana por tentativa de deserção e, segundo informações do próprio Exército, se enforcou com o cadarço de seu coturno.

21. Carlos Rodrigo da Rocha Flores, 18 anos – (morte)

O soldado do Exército Flores que servia no 16º Grupo de Artilharia de Campanha, na cidade de São Leopoldo (Rio Grande do Sul), morreu, em 09 de abril de 2000, com leptospirose (doença transmitida por bactérias encontradas na urina de ratos). Mais 23 soldados do Batalhão de Carlos foram internados com os mesmos sintomas de leptospirose, dias depois. Todos os soldados fizeram treinamentos em um terreno onde foram localizadas várias tocas de ratos e esgotos que contaminam os córregos e lagos da região.

O Exército pagou uma indenização à família de Flores e o caso foi simplesmente encerrado.

22. Anderson Hilário de Souza, 21 anos à época da prisão(tortura)

Acusado de tentar estuprar uma militar da Aeronáutica, o civil Anderson foi preso, em 17/02/1997, sendo levado para o BINFA no III COMAR (RJ). Ali permaneceu por quase dois anos, sendo torturado diariamente, até 29/01/1999, quando foi transferido, bastante desequilibrado emocionalmente, para o Hospital Peniten­ciário Heitor Carrilho onde cumpre pena.

No BINFA ficou na mesma cela que o cabo Nazareno Vargas e o soldado Anderson G. Monteiro, passando pelas mesmas violentas e bárbaras torturas que os dois sofreram (agressões, espancamentos, estrangulamentos, sevícias sexuais, choques elétricos). Por vezes, as torturas eram tão fortes que ficava desacordado.

Seus familiares relatam as marcas de torturas visíveis em seu corpo quando iam visitá-lo.

Foi aberto inquérito policial na Polícia Federal para apurar as responsabilidades dessas torturas no IIIº COMAR e, desde janeiro de 2001, seu caso vem sendo acompanhado pela Procurador Federal dos Direitos dos Cidadãos, no Rio de Janeiro, Dr. Daniel Sarmento.


23. André Luiz Oliveira da Silva, 45 anos à época da prisão – (torturas)

Sargento da Aeronáutica, André estava lotado em Manaus. Em meados de 1997, saiu de lá por estar sendo perseguido em razão de denunciar que aviões da FAB estavam sendo utilizados para o tráfico de armas e drogas na região. Veio para o Rio com licença de saúde e foi obrigado a voltar por ter sido acusado de deserção. Voltou ao Rio, após ter sido absolvido no processo e, através de uma ação judicial, conseguiu permanecer nesta cidade, junto de seus familiares, para tratamento de saúde (é hipertenso e car­díaco).

Em 31/03/1999, um automóvel foi a sua residência com homens à paisana, fortemente armados e, diante de seus dois filhos menores, foi agredido e jogado dentro do carro. Foi levado para o IIIº COMAR e ficou 22 dias na cela do BINFA junto com o cabo Nazareno e o soldado Anderson Monteiro. Por sua patente deveria ficar em alojamento militar e não em uma cela

Hipertenso e cardíaco, passou mal quase que diariamente (dores no peito, falta de ar, suores, boca mole, babando) sem que lhe fosse dado qualquer medicamento e nem a presença de um médico. Era freqüentemente ameaçado de morte.

Como os dois outros presos, não teve direito a banho de sol e a comida quando era servida vinha fria, salgada e com presença de animais queimados (baratas e lagartixas). A água servida era amarelada com cheiro de urina.

Um sargento da Aeronáutica, em depoimento dado ao Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, afirmou que, no BINFA do IIIº COMAR, além dos presos serem “privados de água, às vezes por vários dias, por crueldade”, na alimentação deles era comum se misturar “urina, cuspe, esperma e até restos de animais”. Além disso, este militar, confirmou as denúncias anteriormente feitas pelo cabo Nazareno, pelo soldado Anderson Monteiro e pelo civil Anderson Hilário de que naquele local as torturas e maus tratos aos presos eram comuns, que os agressores normalmente usavam capuz e que não há denúncias porque as pessoas têm medo.

Ainda sobre o sargento André Luiz, após ter sido liberado, apesar de bastante debilitado física e psicologicamente (tem medo de sair à rua) fez denúncia ao Ministério Público Militar, tendo sido aberto Inquérito Policial Militar, onde passou de vítima a réu.

Em janeiro de 2001, seu caso começou a ser acompanhado pelo Procurador Federal dos Direitos dos Cidadãos, no Rio de Janeiro, Dr. Daniel Sarmento.

Estes são apenas alguns casos tornados públicos. Supõe-se que muitos outros aconteçam no cotidiano dos quartéis e durante os treinamentos. Entretanto, o silêncio e a impunidade têm sido a norma.


Dispositivos e serviços de informação, tão fortalecidos durante a ditadura militar, perduram até hoje. Desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, o tema “subversivo” utilizado nos anos 60 e 70, foi trocado por “forças adversas” para designar movimentos populares e organizações sociais.

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